Lançamento da Antologia Poética "Amante das Leituras"

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terça-feira, 22 de maio de 2007

"Bebo-te como água que rebenta da nascente"

de Vera Carvalho, in – "Hoje acordei no verde musgo dos teus olhos"
(Foto: Pré-fusão, de Helder Almeida)

1

A natureza desperta para o murmúrio
das águas, para a flor e para o silêncio
que mora no movimento da sede
e cresce nos lugares mais inusitados
do rio, ao encontro das ondas.

Num fluir discreto se escuta a paixão
da voz ausente, oculta na floresta interior.
É lá que ressoa a vida e não no areal
sem brinquedos onde nada irrompeu,
da raiz enroscada na pedra,
senão uma rosa escarlate.

Desmanchou-se em pétalas,
pela chuva suave, e entregou-se
ao acolhimento das marés
na ressaca da `maior lágrima, o mar' ,
onde nadou sem mais se debater,
em direção ao horizonte.

Nenhuma palavra acesa na praia
à qual não se tardaria alcançar:
por aceno, um rastilho de sílabas...

2

… como nascente de água pura,
cristalina,
remanesce em ti minha sede enorme,
meu pecado, minha menina,
sequioso,
deserto de pensamentos que mantenho,
fixo no teu todo, no teu rosto,
fulcro do meu desgosto,
sustentáculo que retenho na minha existência pequenina,
vulgar,
perante amor tão portentoso,
dedicação dum escravo adornando um pedestal,

tentação,
fruição que me sustém porque me segue,
embota meus sentidos, sempre a pairar,
perdido nos meandros da multidão,
tão só,
sede que me avassala, me sonega,
cala,
obstrui qualquer tipo de sensação,
vontade intensa de te beber, garganta seca pelo pó,
nó górdio que me impede, cega,
loucura, paixão, mansidão
apascentando a dor,
final de tensa refrega,

mendicante em terras de fartura,
nascente de água pura,
verdejantes campos em tempo de sequia, flor que ruboresce,
fantasia que em mim cresce,
formosura,
complemento que sustenta quando intenta,
brota, rebenta,
doença que se ofusca, desaparece,
minha cura,elixir p´ra tanta amargura!!!...

3

aqui tens a minha sede. as pedras dos rios
somente satisfazem a urgência maior
e nada diz de ti esse fio líquido que a sede sacia
queria beber-te nas ondas do teu ciúme
e despedaçar-me no desejo dos teus lábios
queria alcançar a nuvem e colher a rebeldia
das gotas exaltantes dos teus beijos
queria a ribeira da tua pele como a água
que rebenta das fontes
e unidos na mesma sede alcançar o estertor
na cintilação dos mesmos horizontes
queria o incêndio escrito na mesma sede
e morrer no martírio de doçuras de amante

aqui tens a minha sede: fogo e água da tua boca
ardendo no azul de águas murmurantes

4

bebo-te como água que rebenta da nascente,
pouco falta pra que me alcances em tua mão

Se fluis líquido, o teu verso é linimento, l
iga afetiva que une o verbo à ação, fogo
vivo, esse teu toque vigoroso
o paradoxo com que lapido a construção.

5

Para que
um sonho
seja realidade,
são meus olhos
oceanos
que um dia...
secarão na eternidade...!

6

Sou a secura esquecida que brota da mente.
Sem passagem de vento
atravessando sem chegada…
A simplicidade oca do não existente
O mais além quero
que nem atrever intento.
Sou a grandeza sem peso
do zero sem começo
O saber ser menos
que o nada e o nunca
Sou origem sem sede
sem raiz ou nascente
Não bebo nem sinto
Sou do Ser; diferente
Nem tenho o drama
de existir no vazio.
De ter desejos de mapa
de areias,
Navios.
Sou menos que um ponto
escrito no final.
Nem tenho começo
nem meio nem nome
Ser chamado Nada
Já me é enorme…

7

da longa caminhada
o fim: chegar a ti.
E de repente
parece como nada
o deserto percorrido.

8

nos teus olhos só silêncio, a flor da fome
de silêncio pedra clara para um canto
limpojá dou passos mais largos, um pacto
que bebo num copo de égua que ganha a
forma do meu corpo, o corpo denso

9

contínua, a folha arborícola baila,
radiante - desejo de asas perfeitas –
do corpo das aves
Serão olhos, gotículas matinais,
onde sempre mora o flamejante raio
libertador, do cerúleo azul,
tão puro, virginal,
que traga a sensação infantil
Bebo-te, manhã ímpia,
na margem da loucura
escorres de nascentes ocultas,
dos trinados
pelo puerpério dos olhos carentes,
de feto e negaça, em que olvido

10

bebo-te
e afogo-me
de novo

memória
onde sempre
és eterna

na nascente
inconfundível
da infância

11

Maria, minha filha
Tu és a fonte que me dessedenta e alimenta
Eu era cego, e passei a ver(-te)
Era surdo, e me fizeste ouvir(-te)
Eu era homem, e me tornaste um deus.

12

Na beira do mar,
O barulho das ondas!
Na beira do rio,
O canto das pedras!
No pé da montanha,
O soar dos ventos!
No pico mais alto,
A magia das estrelas,
Da lua,
Do sol!
No início da estrada,
Ecos do medo!
No fundo da alma,
Um grito de veludo!
Na palma da mão,
Um encontro
Com o mundo!
Barulho de ANJOS,
SONS DO MUNDO

13

volto ao tempo do não tempo, ao cheiro da bicicletae
da mão da minha avó, que me levava às nuvens
onde voávamos e víamos bichos; e à fonte, onde bebíamos

eu bebia e nunca me afoguei naquela força – nem da mão,
nem da fonte - que me nutriu de mares, naus catarinetas,
quadras; visões que ainda tenho, das quais alguns rieme

eu os deixo, envolvidos no mundo de linhos e faraós mortos

a vida floresce na natureza e nas pessoas, e eu a bebo
como água que rebenta, e me embriago
e me vejo aldeã, pastora, princesa, santa e bruxa

e passeio, por essas almas e corpos, e por outros mais
que só olho, miro – sem ver - e canto a vida
que rebenta como uma folha que rompe o caule

e então me escrevo, a mim e a tantos outros que abrigo
e a tantos quantos forem os que me habitarem
porque temos, em todos e em cada um, a meninice da vida

e por isso somos, e em nós ela existe,
a poesia.

14

no silêncio entrego-me na paixão
de amante ardente.
quero saciar minha sede
e beber em ti
os frescos cristais transparentes
que rebentam da nascente
de cada palavra que invento
para ti: poesia...!


Índice de autores:

01 – Sonia Regina
02 – Manuel xarepe
03 – Bernardete Costa
04 – Sonia Regina
05 – Teresa Gonlçalves
06 – Carlos Luanda
07 – Dalva Agne Lynch
08 – José Gil
09 – Luís Monteiro
10 – Francisco Coimbra
11 – Denilson Neves
12 – Nina Rocha
13 – Sonia Regina
14 – Teresa Gonçalves

5 comentários:

Filipa Rodrigues disse...

Caro Luís,
parabéns por mais este desafio. Assim nem custa nada actualizar o blog.
Beijinhos

ana maria costa disse...

Está FANTÁSTICO este poema colectivo.

grande sucesso para o moderador Luis Monteiro.

Em frente é o caminho meu fiel amigo.

Luís Monteiro da Cunha disse...

Obrigada amigas

mimam-me demais!

mas eu gosto!... hahahah

Jinhos

lmc

Vera Carvalho disse...

Está fantástico, os poetas são incansáveis e gostam de dar trabalho ao nosso Luís :)!
Ele merece;).
Um beijinho.

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado