Lançamento da Antologia Poética "Amante das Leituras"

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terça-feira, 5 de junho de 2007

O canto da sereia é bolero de Ravel

(Foto: autor desconhecido)


de Maria José Limeira, in "Ravel"

01

Quem é esta sereia
que me habita a cada insónia
e com seu canto lamurioso
desvenda meu avesso?

quem é?

Esta mulher oculta
por longas madeixas
que me despe a pele
me deflora sem pânico

em querer ora cúmplice
ora céptico
incendeia-me
víscera por víscera.

transformando-me num grande dilúvio
de desejos e medos.
Quem é?

02

Quem brinca no meu colo,
marinho cavalo,
em cristalino espasmo
do mar?

Ah, não só me navegues
[silenciosa e etérea]
ou voes, ao som de Ravel

Respira-me, sopra o tempo,
o vento transforma
e baila comigo

Há outros acordes no ar.

03

Bolero de Ravel toca as ondas que se quebram na praia em pedaços de luzes que me trazem de volta o teu olhar.

Em cada sonoridade do bolero é uma contrapartida com a sonoridade das ondas beijando a face da praia emudecida acarinhada pela natureza.

Sei, eu sei, você não está mais onde nossos olhos buscam sua presença, mas meu ser sabe que você sempre estará onde eu estiver.

Pois somos dois seres num só, somos de Ravel a música e da natureza as ondas do mar que beija minha face cheia de saudade.

Fisicamente você não estará onde o meu olhar irá pousar, mas estarei abstratamente onde você estiver me acompanhando pelos caminhos que meus passos irão traçar.

Minha luz se completa com a sua luz direcionadas a um só objetivo: trazer a quem nos ama a felicidade eterna.

Não desligue o som, deixe Ravel exprimir nossa saudade no Bolero infindável.


04

... como sereia inebriante,
loucura arrebatadora,
maviosa, sedutora
que nos reduz,
induz,
nos arrasta em paroxismo
surgem sons quase inaudíveis,
imperceptíveis,
que nos prendem,
nos captam,
se alteiam,
nos incendeiam,
nos assaltam
nos enleiam,

numa fúria que se solta,
coloca no meio dum vendaval
maravilhas incontáveis,
sentidos prostrados, rendidos,
como bola que carambola,
precipício abismal,
torrente fenomenal,
sonhos inalcançáveis,
Paraísos quase perdidos,
mente dum Ravel que é bolero,
como gosto, como quero,

quase me solto da Terra,
baralho corpos, pernas,
premeio dança que avança,
loucura dum infinito,
bênção dum Deus que gera,
tudo de bom, de equilíbrio,
prisão que prende qual teia d´aranha,
débil, forte fio,
que nos encanta, nos apanha,

fortes pancadas que soam,
acordes que vêm
que voam,
estremecem,
reparos que nos merecem
entrega, qual revoada
que nos reduz a nada,
sendo tudo,
bastante mais,
num Mundo
de criadores geniais,
auditores embevecidos,
maravilhados, estarrecidos,
confundidos,

oceano imenso em que me afogo,
labareda que me consome,
alegria, meu desgosto,
minha renúncia,
minha fome,
minha entrega, desistência,
arrastamento
em pensamento!!!...


05

Um perfume que emana
ondulante nesse corpo
de vento que inflama
O sentido inerte de quem
Escuta e chama a chama
do vulto que volteia e volta
não volta esvaído e prenhe

a graciosidade do gesto
no canto [onde a voz?]
o ritmo
a juzante do sonho
quase beijo
um toque dos corpos sudário
nos pés de sereia esse bole_
ro_manc(h)e inefável

todo o instante é e nada mais
que o grito inebriante
marujo e alucinação


06

para quem sabe surfar
no ar
o som é mar em ondas infinitas


07

o canto da sereia
prende-me ao mastro
desfraldando velas
com as mãos  só
de ouvi-la ao longe

a viagem começa
com o pressenti-la
no senti-la ao perto

versando esperanto!

08

Canto.
Canto triste.
Se é verdade que algo existe
para além dos mares
onde a sereia se esconde
(onde? onde?)
um barqueiro merencório descortina
navegando ao largo,
de rosto colado
ao violino,
marulhando ondas,
nos últimos acordes
do bolero
que Ravel não esqueceu.


09

era noite. a noite mais dia
naquela praia tropical.
o canto da sereia lançado
à lua num gemido de prazer
depois...
o movimento lento
dos nossos corpos
exigiu mais
ao som do bolero
e nasceu
a flor dos meus olhos.


10

Quando Maria nasceu
As estrelas e os cometas
Soltaram fogos no céu

Para completar o quadro
As sereias entoaram
O bolero de Ravel.


11

Uma aresta
arrepios...
a um de fundo
pernas
e
abraços

Ravel...
dois corpos
tintos
em
esmaecidas
carícias

12

Entre as pernas os sinos afloram estrelas
por entre sussurros numa escala musical
e teu corpo em ondas de espumas e ternuras
tocam a sonoridade dum tempo imemorial
como um bolero de Ravel crescendo
no incêndio da explosão final

Desse longe ó sedutora voz de sereia
a dança dos sentidos evolar-se-á na memória
como se fora uma pequena história
na minha mão cheia
…de grãos de areia

Para quê, feiticeira, segurar o sono da noite
prolongar a sede mais ardente do teu cântico
se despertarei definitivo
no parto lilás da aurora?


13

Ouvimos juntos o bolero de Ravel
seus olhos verdes cheios de significados.
Mas a musica era seu canto
seu feitiço consumidor.
E deixou-me em amarras
nas profundezas...


14

De que tens medo?
Da solidão?
Ou do sopro do vento
a lembrar-te na vastidão
dum lamento,
Só ter o uivo como brinquedo?...


Índice de autores:

01 – Andréa Mota
02 – Sónia Regina
03 – Osvaldo Pastorelli
04 – Manuel Xarepe
05 – Luís Monteiro
06 – Rogério Santos
07 – Francisco Coimbra
08 – Maria José Limeira
09 – Teresa Gonçalves
10 – Denilson Neves
11 – Andréa Motta
12 – Bernardete Costa
13 – Dalva Agne Lynch
14 – Carlos Luanda



Comentário do Moderador:

Amigos, penso que o objectivo foi
conseguido: falarmos de sereias,
a misticidade a que são inerentes;
e falarmos do bolero e da beleza
análoga que se descobre de ambas
as imagens, na forma poética e
despretensiosa, dos nossos sentimentos.

Espero que seja do vosso agrado esta
sequência dos poemas e formatação.

Obrigado

Luís

2 comentários:

ana maria costa disse...

Parabéns!

Não me canso de dar parabéns tanto à Filipa pelas fotos que bem leem os poemas como ao Luis pelo seu empenho.

jinhos

Assim disse...

O gosto estético está presente também na perfeita organização dos versos, dá gosto! Parabéns!!